Por que os celulares devem ficar mais caros em 2026

A ideia de que os celulares vão ficar mais caros a partir de 2026 não é só “achismo”. Consultorias como a TrendForce e fabricantes como a Xiaomi já admitem que o custo de componentes-chave, sobretudo memória RAM (DRAM) e armazenamento (NAND) disparou em 2025 e deve continuar subindo na virada para 2026.

O motivo: os mesmos chips de memória dos smartphones são usados em data centers de IA. A explosão desses servidores fez a demanda por DRAM e NAND explodir justo quando os fabricantes tinham cortado produção para conter prejuízo. Resultado: contratos de DRAM subiram mais de 75% em um ano, adicionando cerca de 8–10% ao custo de fabricação de cada aparelho só por causa da memória. Executivos da Xiaomi já avisaram que esse aumento está sendo repassado aos preços e projetam celulares mais caros em 2026 se o cenário de oferta apertada continuar.

O que está encarecendo o celular por dentro

Quando falamos que o aparelho vai ficar mais caro, não é só por causa de “câmera nova” ou “design diferente”. O vilão agora é o que o usuário nem vê: DRAM (a memória RAM do sistema) e NAND (o chip de armazenamento interno).

Relatórios recentes indicam que os preços de DRAM vêm subindo trimestre a trimestre em 2025, com previsão de aumento de 18–23% só no quarto trimestre e possibilidade de novas altas no primeiro semestre de 2026. A própria TrendForce estima que, com memória representando em torno de 10–15% do custo total de componentes de um smartphone, esse salto já gerou um aumento de 8–10% no custo de produção em 2025.

Do lado da NAND flash, a história é parecida: depois de cortes de produção desde 2023, os fabricantes agora trabalham com oferta mais justa, enquanto a demanda por armazenamento em nuvem, SSDs e celulares volta a crescer, puxada pelos workloads de IA. Projeções falam em alta de dois dígitos para preços de NAND entre o fim de 2025 e o início de 2026, com demanda anual prevista para crescer mais rápido do que a oferta.

Ou seja: mesmo que o seu próximo modelo não mude tanto em câmera ou acabamento, só o fato de ter DRAM e NAND mais caros já coloca pressão extra na etiqueta.

A corrida pelos “celulares de IA” também pesa na conta

Como se a memória mais cara não bastasse, os fabricantes estão empurrando o conceito de “smartphone com IA generativa” como próximo grande diferencial. Para vender essa ideia, eles estão equipando aparelhos com:

  • mais RAM (8 GB virando novo mínimo em muitos intermediários “de IA”).
  • mais armazenamento (256 GB no lugar de 128 GB).
  • SoCs com NPUs mais potentes para rodar IA no dispositivo.

Tudo isso vai direto para o BOM (bill of materials), que é a soma do custo de todas as peças de um produto. Relatórios de mercado já apontam que a demanda por LPDDR5X, usada tanto em flagships quanto em aparelhos “AI phone”, está sendo estrangulada porque boa parte da capacidade de produção migrou para memórias HBM e outros chips de alto valor usados em aceleradores de IA.

Na prática, o marketing da IA empurra o hardware para cima, e o hardware mais parrudo chega à linha de montagem num momento em que cada gigabyte de memória já está mais caro. Isso torna mais difícil manter aquele “bom intermediário baratinho” que o brasileiro gosta de encontrar na promoção.

Do fornecedor de memória à vitrine no Brasil

O caminho que transforma uma alta de DRAM em celular mais caro no varejo brasileiro passa por várias etapas:

Primeiro, fabricantes de memória como Samsung, SK hynix, Micron e outros ajustam produção, elevam preços contratuais e priorizam quem paga mais hoje, data centers de IA e grandes provedores de nuvem. Depois, fabricantes de chips móveis e de smartphones precisam decidir se aceitam margens menores ou repassam parte desse aumento.

Relatórios recentes apontam que marcas de celulares já estão sentindo esse impacto e, em alguns casos, subindo o preço de linhas novas em relação à geração anterior como aconteceu com a série Redmi K90, da Xiaomi, lançada com valor inicial mais alto que o K80, justamente por causa do custo de memória.

Quando esse aparelho chega ao Brasil, entram na equação dólar, impostos, logística, operação do varejista e da operadora. Qualquer aumento de custo lá na base tende a ser amplificado no fim da cadeia, especialmente num mercado com alta carga tributária e margem apertada para promoções agressivas o tempo todo.

Quem vai sentir mais: entrada, intermediário ou topo de linha?

É improvável que todos os segmentos sejam afetados da mesma forma. Hoje, as análises de mercado apontam que smartphones de entrada e intermediários são os mais expostos à pressão de custo.

Topos de linha já operam em patamares altos de preço e dependem de reputação e marketing pesado; aqui, os fabricantes até podem subir um pouco, mas precisam cuidar para não afastar demais o público premium. Em muitos casos, a estratégia pode ser manter o preço e reduzir alguns “investimentos” invisíveis, como acessórios na caixa ou pequenas economias no projeto.

Na linha intermediária e de entrada, o cenário é mais duro. Omdia e outros institutos já observam aumento do custo de componentes pressionando justamente os aparelhos mais baratos, com risco de:

  • cortes silenciosos em RAM e armazenamento.
  • câmeras reaproveitadas de gerações anteriores.
  • menos recursos de proteção e acabamento.

É nessa faixa, entre o “intermediário de mil e pouco” e o “premium acessível”, que o brasileiro pode sentir que aquilo que antes entregava muito pelo preço agora parece mais caro ou menos interessante.

O que muda na prática para o consumidor brasileiro

O efeito dessa combinação: memória mais cara + corrida pela IA + câmbio oscilando, tende a ser um “aperto gradual”, não um salto único de um ano para o outro.

Para quem troca de aparelho a cada dois ou três anos, é bem possível que, em 2026, o modelo que ocupa “o mesmo degrau” da linha onde você comprou em 2023/2024:

  • custe mais caro,
  • ou ofereça menos RAM/armazenamento pelo mesmo valor,
  • ou dependa mais de promoção agressiva para valer a pena.

Por outro lado, esse movimento também abre espaço para topos de linha de gerações anteriores virarem negócio mais interessante: o flagship de 2024 com 12 GB de RAM e 256 GB de armazenamento pode, em algumas promoções, competir diretamente com o intermediário 2026 com ficha mais “apertada”.

Para o brasileiro, que já lida com imposto alto e renda apertada, o jogo passa a ser menos sobre “ter o último lançamento” e mais sobre posicionar bem a troca e escolher faixas que entregam mais por real investido.

Como se preparar desde já

Se o seu celular atual já está sofrendo, bateria fraca, espaço estourando, sem atualização de sistema, câmeras muito abaixo do que você precisa, pode fazer sentido antecipar a troca ainda em 2025 ou início de 2026, aproveitando estoques de gerações atuais antes da leva de aparelhos com custos reajustados.

Se o aparelho ainda está bem, a melhor estratégia é alongar o ciclo:

  • cuidar da saúde da bateria (carregamentos mais suaves, evitar calor extremo);
  • limpar apps e arquivos inúteis para ganhar fôlego de armazenamento;
  • não entrar em troca por puro hype de IA, principalmente se a sua rotina não aproveita esses recursos.

Em paralelo, vale acompanhar:

  • promoções pontuais (Prime Day, Black Friday, grandes campanhas de varejo);
  • modelos de 2024/2025 com 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento, que podem se tornar “sweet spot” frente a intermediários novos com ficha menor pelo mesmo preço (números ilustrativos, a confirmar em cada lançamento).

2026 pode ser o ano do consumidor mais seletivo

O cenário que se desenha até aqui é claro: a IA está valorizando a memória, e a memória mais cara está encarecendo tudo que depende dela, dos servidores que treinam modelos generativos ao smartphone que você coloca no bolso. DRAM e NAND sobem de preço, fabricantes de celulares sentem o impacto, e o consumidor acaba no fim da linha da cadeia.

Para quem compra celular no Brasil, isso significa três ajustes de mentalidade:

  • Troca menos impulsiva: pensar em ciclos mais longos, cuidando melhor do aparelho atual.
  • Mais comparação entre faixas: olhar com carinho para topos de linha de anos anteriores e intermediários bem equilibrados, não só para “o lançamento do momento”.
  • Desconfiar do hype vazio de IA: recursos inteligentes são bem-vindos, mas não justificam pagar muito mais por um aparelho que, no resto da ficha, entrega menos do que modelos de uma geração atrás.

Se a IA vai deixar o celular mais inteligente, 2026 também vai exigir um comprador mais esperto: alguém que entenda de onde vem o aumento de preço, faça conta fria e use cada promoção e cada atualização de linha a seu favor.

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